Life and Death Matters

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Monday, September 08, 2008

Tragédias do Brasil

O Brasil teve duas grandes tragédias em sua história: o Império e a ditadura de '64. O primeiro por seu incrível anacronismo, mesmo à época, já que havia mais ao norte um bom exemplo de República bem-sucedida e, à fronteira, vizinhos que firmavam suas próprias versões deste estilo de governo (mesmo que modelos lamentáveis e pouco eficazes). O Brasil, país eleito por Deus, tinha, no entanto, uma elite que sabia melhor, e ficamos com um ditador, uma regência composta por recém-formados do Mobral e um acadêmico que, ó incômodo!, virou rei.

Daí veio '64. Nossa magnífica classe dominante, aliada às nossas paranóicas e ferozmente incompetentes forças armadas, desfilaram um golpe de estado, e pelas mais diversas razões, as principais sendo o perigo que corria a louvação à Cristo e, claro, a marcha da subversão que, como já disse Mino Carta, estamos a esperar até hoje. Foi um golpe que resultou num Brasil que, à primeira vista, era deslumbrante: não se ouviam queixas de estudantes hippies e pobres (e quando se ouvia, cassetete neles!). E melhor de tudo, a classe média pôde comprar seus Fuscas e geladeiras à prazo e curtir um Brasil livre de comunistas e pretos sujos à rua reclamando da vida. Viva o capitalismo!

As eventuais mortes de estudantes, jornalistas ou mecânicos por parte do aparato de "segurança" (terror, mesmo, era filha de "família boa" casar-se com algum pobre, ou vagabundo) eram, antes de '73, vistas como normais por grande parte da população; afinal, o Brasil crescia a um ritmo fantástico (veio depois a ser o país que mais cresceu no século vinte, segundo Delfim Netto, em entrevista de 2000 ao livro Histórias do Poder), abençoava o país um tal de milagre. As classes média e empresarial só vieram a perceber seu tosco erro em '73 e, principalmente, em '79, quando duas crises do petróleo tornaram mais difíceis comprar um Fusca e uma tevezinha bacana para chamar a vovó para ver a Fantástico domingo à noite. Ficamos, após a ditadura acima mencionada, com um país de economia dúbia, instituições ou lamentáveis ou inexistentes, uma população débil (o coronel Jarbas Passarinho consegui, como ministro da educação, deseducar um país inteiro), um corpo estudantil desmotivado e despolitizado e uma incapacidade patológica de dizer um firme não ao autoritarismo, à corrupção e à tortura, que até hoje é vista com bons olhos. A única coisa que melhorou desde então (digamos, '88) foi a economia. Não é pouca coisa, mas não é mais do que um começo.

O que certamente reflete neste perfil do jovem de hoje que o Datafolha pesquisou e publicou em julho deste ano. Vemos um jovem que, ao contrario do que se espera, é preocupado não com revolução ou em "causar", mas com arranjar um emprego, ter seu próprio dinheiro e casa própria e, claro, estudar. Mas poderia ser diferente? Até '95, estávamos acostumados com o preço de quase qualquer artigo mudar uma ou duas vezes em um só dia. Antes desta data, o Orçamento da União era um delírio, uma ficção. Só depois do Plano Real é que pôde vislumbrar-se, pelo menos do ponto de vista dos jovens, a obtenção de empregos fixos que não fossem estatais, financiamentos que não dessem errado no meio do caminho, a oportunidade de ir à universidade, mesmo que essa fosse a Uninove ou a Uniban.

E pior: este mesmo jovem não só tem perspectivas completamente individualistas, como também prima por um comportamento lamentavelmente conservador. Segundo a mesma pesquisa, vemos um jovem brasileiro que acha que a lei do aborto é boa do jeito que está (mesmo quando o aborto tornou-se, como descreveu José Gomes Temporão, um problema de saúde pública). Vemos um jovem que acha que se deve ter uma pena de prisão para menores de dezoito anos, que se deve proibir a maconha.

É rir para não chorar, especialmente porque este é o mesmo jovem que não acompanha o noticiário político, que insiste em ir a igreja procurar consolo, que não lê nem jornal nem livro, que acha que garotas devem casar-se virgens e que transam pela primeira vez aos quatorze, quinze anos. É profundamente deprimente ver, tanto na FGV, onde presentemente estudo, quanto em pesquisas como a do Datafolha, que os jovens hoje acham que a felicidade está em tradição, família e propriedade, este mesmo lema que custou-nos vidas, torturados, cidades ultraviolentas, mais e mais viciados em drogas, corrupção endêmica, mães aos dezoito, atraso em todos os sentidos.

Não sei dos jovens do resto do Brasil além de pesquisas como a que mencionei. Nem conheço direito os jovens da FGV. Mas se depender destas pesquisas e daqueles que conheci em sala de aula, o Brasil está fodido. Sim, fodido, esta é a palavra científica para se descrever o Brasil do futuro. Se o melhor que teremos como liderança próxima são pessoas que não se interessam pelo fato que pode-se se comprar até um ministro do Supremo Tribunal Federal, pessoas que acham que todo o patrimônio público é deles, pessoas que acham que um bom emprego e um carrão trazem felicidade, nós estamos fodidos. Mas até aí, nada de muito novo, o Brasil é uma bosta desde 1530.

Publico este post sem revisão; temo que, se revisá-lo, deixarei de ser honesto. Sei que não sou exemplo a ser seguido, pois muito caguei nesta vida, muitos erros cometi que eram evitáveis. Mas não pode ser que aquilo que o futuro guarda para o Brasil são líderes que não lêem e não se interessam, exceto por dinheiro, poder e uma cega devoção ao Livro Preto, supostamente composto pelas sábias palavras de um Velho Barbudo que, apesar de perfeito, criou as bichas, os pobres, os pretos e todos aqueles que estes mesmos devotos líderes amam odiar.

Tuesday, February 12, 2008

Carta Capital & Mino Carta

To my dear English-speaking readers, the following blog's in Portuguese. Once again, for translations, try out Foxlingo.

* * *

Falo, já há algum tempo, para quem quer e não quer ouvir, que a única revista semanal que presta neste país é a Carta Capital. Digo isto por algumas razões. Primeiramente, parece-me ser a única cuja eminência parda, Mino Carta, aparenta preocupar-se com Jornalismo. Em segundo lugar, trabalham na revista jornalistas de verdade (Phydia de Athaide, Leandro Fortes, Ana Paula Sousa, et al.), pessoas que investigam e cumprem aquilo que é, ao meu ver (de leigo), o dever de todo indivíduo que pratica tal profissão: buscar a maior aproximação possível da verdade. Em terceiro lugar, em nenhuma parte da revista encontra-se um português massacrado por pseudo-jornalistas aparentemente semi-analfabetos.

Mais importante, talvez, seja o fato de que, apesar de saberem que não podem visar, como público-alvo, mais do que a classe média, a classe média-alta e a classe alta, aqueles que trabalham na Carta Capital aparentam demonstrar genuíno interesse no Brasil inteiro como assunto, não apenas no Brasil que serve à cobiça daqueles que, por sorte, ganância, ladroagem, trabalho ou uma mistura destes, ganham mais de R$800 por mês.

A revista em questão não é perfeita, de maneira alguma, e não concordo com tudo que ela fala e faz. Ao meu ver, sua posição quanto a política econômica do governo Lula não é correta; acho que a revista errou feio na sua reportagem quanto ao filme Tropa de Elite; e acho um violento equívoco o fato de a Carta Capital nunca entrevistar o corpo do contingente das Polícias Militar e Civil -apenas Capitães, Coronéis e Delegados, e isso só de vez em quando.

Mas continua a ser uma revista semanal honesta: sempre foi pró-Lula, e assim nos conta, desde sempre. E quando discordou do mesmo; de seu governo; ou daqueles proximos do presente presidente, assim notificou ao seus leitores. Mino Carta é uma pessoa de esquerda; todos na revista, aliás o são (ou pelos menos o aparentam ser). O foda aqui no Brasil, já que este é um país francamente de direita (entre, claro, as pessoas que ganham mais de R$800 reais por mês, que são os únicos que realmente têm voz na Grande Imprensa) é que ter uma revista dessas já faz a muitos chiarem, chiado esse que ouvi quando, na banca da Nove Julho, próxima à entrada da FGV, sugeri ao meu amigo Eitan comprar a Carta. Disse-me ele que ela era "tendenciosa". Sim, por que a Veja não é. Nem a IstoÉ, nem a Época, nem a Veja.

O problema é que aqui, em Terra Brasilis, aquilo que não vem ao encontro da opinião de certo sujeito (Eitan, neste caso) é tendencioso(a). Imagino que muitos partidários do PCdoB devem achar a Veja super tendenciosa e a Caros Amigos a nona maravilha do mundo moderno, especialmente aquela edição especial que, se não me engano, intitulava-se "Cuba, Sempre" (foi após esta edição, diga-se de passagem, que deixei de ler a revista).

Muito mais interessante, talvez, seja as pessoas primarem por duas coisas: a procura do bom jornalismo (seja ele de direita, esquerda, centro, da casa da minha avó) e o entendimento de que tudo que há em termos de jornalismo e informação, mesmo agências de notícias (Reuters, Efe, etc.), é tendencioso.

Por último, vale mencionar que a Veja e a IstoÉ viveram seus melhores momentos de jornalismo quando Mino Carta era chefe de suas respectivas redações. Provavelmente saiu por suas posições, mas isso é conjectura minha.

Aqui vai, então, em três partes, uma entrevista que Carta deu ao jornalista esportivo Juca Kfouri no programa "Juca Entrevista", da ESPN. É um programa esportivo e um dos principais focos da entrevista foi, ou era para ser, os jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, onde houve uma roubalheira por parte dos organizadores (Arthur Nuzman e Cia Ltda.) incrível. Como caveat, menciono que Juca também é de esquerda e muito provavelmente votou para a Heloísa Helena na eleição de 2006 pois, em sua entrevista para a revista Caros Amigos em Junho do mesmo ano, apresentou certa preferência por esta candidata.

Entrevista, Parte 1



Entrevista, Parte 2



Entrevista, Parte 3

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